Cade?
Onde é que está?
Deve estar em algum lugar.
Mas onde?
Já procurei em todas as gavetas, prateleiras, baús e armários. Já procurei em baixo da cama e entre os lençois. Já procurei e nada.
Cade aquele botão, discreto e quase imperceptível? Aquele azul, pequeno e camuflado?
Aquele botão que serve para apagar tudo e começar de novo. Aquele que zera e entrega uma página em branco. Aquele que faz deletar o que passou e, melhor, não esperar pelo que virá. Cade aquele botão que deve estar em algum lugar de mim para me ajudar a olhar pra frente sem busca, sem expectativas, sem mágoas ou desilusão. Simplesmente nova, como quem nada procura, quem nada quer. Como quem já tem tudo o que precisa: Deus, família, amigos, trabalho e vodka. Como quem não precisa olhar para fora e não tem curiosidade sobre o que existe dobrando a esquina. Como quem simplesmente vive e deixou o futuro a cargo de alguém bem mais sábio e experiente.
Cade o botão que me desligaria de todo o resto e faria o viver apenas uma conta matemática de um dia depois do outro, com uma noite no meio, cheio de obrigações, direitos e deveres, mais prático e menos idealista, romantico e esperançoso, que me faria viver sem esperar por um amor ou por uma promessa dele, ao menos?
Nesse caso o amor seria o ultimo integrante da operação, a esquecida, deixada de lado, rebaixada a quinta divisão do grupo de acesso. O amor seria uma lembrança distante, como um vento que trás um perfume conhecido mas que não nos lembra de onde. O amor estaria camuflado no carinho dos amigos, na amizade com minha mãe, em novos hábitos familiares, na aproximação ao meu irmão, nos amigos de longo data reencontrados, no porre esporádito em uma festa qualquer e na paquera efêmera com o segurança mais bonito. O amor seria carta fora do baralho, como um coringa que se tira para poder começar o jogo. O amor seria a possibilidade de viver sem ele, sem esperar por ele, sem querer ele, sem sonhar com ele, sem contar com ele.
Cade o botão que desliga a necessidade de amar, de sentir-se amada, de existir habitando o olhar do outro? Cade o botão que faz tudo isso parecer desnecessário e possível de viver sem? Eu preciso encontrá-lo, em algum lugar. Para que viver, ao menos pelos próximos meses, seja menos esperançoso. Quem diria. Estou pedindo menos esperança, menos fé que algo/alguém apareça e faça tudo ter valido a pena, não ter sido em vão, me reconheça como um extrangeiro que reconhece sua casa.
Eu quero viver sem esperar por isso.
Cade o botão?
A.P.

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