Eu queria te agredir com a minha dor. Eu queria usá-la como arma mais letal. Será que ela, e apenas ela, seria capaz de tocar você, de provocar alguma reação sua? Eu queria ao menos te ver sofrendo também, ver as lágrimas no seu rosto por motivos tão diferentes das outras vezes em que as vi. Eu queria te mostrar o quanto eu estou sofrendo e a dor que você provocou em mim. Tem algo mais auto destrutivo do que querer tornar público o meu coração em pedaços, a minha cabeça confusa, de forma crua e real? Tem algo mais desesperador? Pra você ver até onde cheguei. Ontem chorei tanto, mas tanto, agarrada no travesseiro como se ele fosse você. Você suportaria me ver/sentir sofrendo assim? Ir embora não é algo que eu QUERO, sabe? Não está na ordem do querer, como um escolha livre, fruto da vontade, do desejo. Eu vou embora porque eu PRECISO ir. Percebe a diferença? Eu não posso ficar, como uma velha, sentada em um banco, esperando por alguém que não vai voltar. Eu PRECISO me levantar e ir embora, mesmo sem saber direito como fazer isso, tropeçando o tempo todo, me encostando no meio do caminho pra deixar cair algumas lágrimas, me esforçando para não olhar pra trás, olhar para o que passou, pro que tivemos. É duro tentar andar e não conseguir, titubear o tempo todo, tropeçar e cair quinhentas vezes. Eu estou longe, anos luz, de te esquecer, do amor que eu sentia por você ter morrido, de não lembrar e querer te ter por perto. E eu queria te agredir. Não aparecendo com um outro na sua frente ou na dos seus amigos, não fingindo a minha alegria e que já és água passada, mas te deixando ver o tamanho da minha dor, das olheiras no meu rosto, do meu sono que há três semanas anda uma merda, dos meus olhos vermelhos e nariz obstruido de chorar a tarde inteira, quando ninguém está em casa e o trabalho não me chama. Desespero, raiva, sofrimento, vingança, despeito, exagero, chantagem, não sei como chamar. Só sei que dói e eu queria que doesse em você também. Será que dói? Teu medo é do que já sofreu, das experiências que já teve, com as vezes antes em que seu coração foi mal cuidado, machucado, devolvido. Pra não vivê-las novamente você se fecha e nega o que a vida lhe deu: uma possibilidade de amor. E aí eu queria ser um besouro pra zumbir no seu ouvido, tirar o seu sossego, atormentar a tua vida, mas te dizer bem baixinho: somos tão responsáveis pelo o que fazemos como pelo o que deixamos de fazer; acertaremos as contas pelo feito e pela omissão, pela coragem e pela covardia, pelo uso, abuso ou desperdício, pelos erros de toda ordem. Se pra não se machucar deixastes de viver algo e esse algo não tinha nada a ver com um passado, pecado grande há de teres cometido, pois trouxe dor e desamor a alguém que tanto de você cuidou, amou, protejeu, sonhou, torceu, rezou. Você sempre será responsável por isso e que essas palavras lhe soem como uma faca enfiada no corpo, daquelas que pode-se viver com ela ainda instalada, mas que dói quando a temperatura muda, fazendo-se lembrar. Não queria te desejar coisas tão duras, nem perceber a amargura em meus versos. Trabalharei para acabar com isso logo, te perdoar pelas suas escolhas, não te desejar mal. Eu ainda estou aprendendo, eu ainda estou descobrindo o que fazer.
Ps. Texto antigo, encontrado nos arquivos. Graças a Deus!

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