quarta-feira, 30 de março de 2011





Pelo menos uma vez por mês aparece uma chamada não atendida tua no meu celular. Não sei porque, se é Deus brincando com a gente ou se é o destino complicando tudo, mas só vejo depois que você ligou. E aí eu só retorno quando chego, puxando fogo e de madrugada, de uma festa qualquer. As vezes com vontade de te xingar, pedir pra você sumir e nunca mais me procurar, outras pra relembrar um passado, antes de tudo ter ir por água a baixo. Mas não nos falamos, parece jogo de gato e rato.

Eu morro de curiosidade de saber algumas coisas. O que será que você quer me falar quando me liga? Será que suas palavras serão de desculpas, pedidos de perdão? Será que terás argumentos para me convencer do seu arrependimento e a superar os teus erros? O que será que você ainda pensa, depois de sete meses da minha ausência na sua vida? Como são os momentos em que me ligas? Estás lembrando de mim? Por qual motivo? Não esqueces a minha voz, a minha risada, a forma como carinhosamente te chamava? Estás sozinho, teve um dia difícil, a solidão bateu? Como tem sido a sua vida longe de mim?

Eu até tenho andando pela tua cidade, passado ao lado do teu apartamento, frequentado lugares que estivemos juntos, mas é como se você não estivesse mais lá. Aquela cidade, aliás, já nem é mais tua, é tão minha como essa, em que vivo há mais de 20 anos. É claro que lembro de você. Sinto sua falta nos dias em que chego em casa, cansada e estressada, querendo alguém pra desabafar, alguém que mesmo na distância se fazia tão presente. Sinto falta de quem éramos quando estávamos juntos, da cumplicidade que tínhamos, do companheirimo. Você alegrava os meus dias tristonhos e eu ocupava, no seu final de dia, o vazio de quem passa o tempo ocupado com algo que não sabe se realmente é aquilo que quer fazer da vida. Nosso ponto de encontro. Aquela operadora de telefonia, a varanda da tua casa, a cama do meu quarto e um elo, invisível, que nos unia e fazia com que a sua presença fosse mais forte do qualquer outra coisa e a minha vida, por alguns instantes, minutos, muitas vezes horas, tinha um outro sentido, um outro colorido. Há quem diga que a gente precisa do olhar do outro pra existir, que a gente precisa se ver no outro olhar para ter, legitimado, a existência como seres humanos de relação. E eu digo que, se isso for verdade, eu existi quando estivemos juntos. Eu senti que eu não era mais uma pessoa, entre tantas milhares que passam por mim na rua, eu era única, especial, diferente e não precisava de mais ninguém, porque eu tinha você e o seu olhar, que me fazia sentir a mulher mais especial e amada da redondesa.

Me iludi, quis me iludir. A "culpa" não foi somente sua, apesar das inúmeras oportunidades que tivestes de fazer diferente, fazer outras escolhas, me assumir, se assumir, ter coragem e encarar o que a gente já tinha, mas tinha medo de nomear. A gente foi se perdendo um do outro, fomos adotando ritmos diferentes e passamos a dançar estilos completamente destintos. Quando eu estive pronta pra te assumir, pra mim e pros outros, você não estava e porque não pode, não conseguiu ou, simplesmente, porque não quis, acabou se retirando dessa história. Se tudo tivesse acabado aí, nesse instante, talvez hoje, as suas procuras e pedidos de desculpas poderiam amolecer meu coração, eu, muito provavelmente, cederia e iria, de novo, para os seus braços. Mas o que aconteceu depois disso deixou uma marca que não tem como negar, esconder, esquecer ou apagar. Tudo o que aconteceu depois jogou terra no que de bonito a gente viveu. Tudo o que aconteceu depois transformou em ruína o castelo antes construído. Tudo o que aconteceu depois manchou, talvez para sempre, uma linda história.

A sua traição foi o que de pior poderia ter nos acontecido. E não estou falando da traição do corpo, da pele, do desejo. Eu fiquei com outras pessoas enquanto estávamos enrrolados e creio que você também deva ter feito mesmo, embora eu nunca, em momento algum, tenha deixado que essas pessoas se aproximassem o suficiente para colocar o que nós tinhamos em risco, já que a gente era mais, bem mais, importante pra mim. Estou falando da traição do sentimento, da honestidade, do respeito, da amizade. Estou falando do quanto, em momento algum você cuidou de mim. Cuidar, não como quem cuida de um cristal ou de um monte de açúcar que pode se molhar, mas como quem cuida de ser sincero, de não iludir, enganar, de dizer e prometer coisas que não iriam ser cumpridas, de ser sincero mais do que comigo, mas com você mesmo.

Você me traiu não só como homem, mas como amigo, como pessoa. Então hoje, por mais que eu sinta falta de você e do que um dia tivemos, eu não posso, não quero, não devo, sentir saudades. Saudades, pra mim, é vontade do retorno, de querer voltar a um passado, um momento, um lugar, um tempo ou então de ter de novo, novamente, no presente. Então, claro que eu lembro de ti, talvez sempre me lembre. Me pergunto o que será que fizestes com o CD que te dei, se usa a camiseta do seu aniversário, se ainda tens minhas fotos, se os lugares também te fazem pensar em mim, se teve ciúmes quando soube que eu estava com outro, como reagiríamos se nos esbarracemos em um samba qualquer. E por essas lembranças eu até posso por um instante pensar em repensar, eu até posso, no fundo, torcer por uma atitude sua, que os seus argumentos me convençam, que você lute por nós e faça diferente, que você teime, insista, faça birra no portão da minha casa, que seja capaz de alguma atitude mais corajosa e firme. Mas logo em seguida, ao olhar pra frente, eu vejo o depois e ele existe, não consigo não ver

A mágoa, a dor, a decepção, a tristesa que me calsastes foi dura e profunda, me mudou para sempre, carrego uma cicatriz enorme no peito. Uma cicatriz que hoje cicratizou mas não porque foi cuidada, dado pontos, passado cicatrizante. Ela cicatrizou porque tinha que cicatrizar, daquelas que se fecham de dentro pra fora e deixam uma marca de queloite que não tem maquiagem, comésticos ou cirurgia plástica que tire. Eu não sou a mesma que você conheceu e isso tanto pode ser ruim como ser bom. Como alguém que quebrou o fêmur. Doeu horrores, sofreu, chorou, mas fez uma cirurgia, substitui o osso por uma placa de titânio, e mesmo que a função esteja reestabelecida, que a vida continue, se envelheça e a perna esteja, aparentemente, a mesma, quando chove ou quando a temperatura esfria o titânio dói, acena um olá pra você não esquecer que ele esta ali, uma lembrança de algo vivido e que mesmo tendo sido superado deixou marcas, pro resto da vida.

Talvez eu sempre te ame e talvez eu também sempre carregue no olhar, ao tocar no seu nome, ao ver o teu número chamar, ao te ver em algum lugar, essa sombra no meu olhar, essa dor que embora cicatrizada insiste em não me deixar esquecer. Eu não volto porque eu não consigo. Eu até gostaria, mas eu não consigo. Talvez você nunca tenha a noção da dimensão do que aconteceu e talvez seja até melhor assim pra você. Eu só não posso é te ter por perto, de forma alguma. Eu só não quero é lidar com o seu fantasma, de tempos em tempos, batendo a minha porta pra me assustar. Eu só não vou é alimentar você, que não mudou.

"Mesmo querendo eu não vou me enganar, eu conheço os seus passos, eu vejo os seus erros, não há nada de novo, ainda somos iguais, então não me chame, não olhe pra trás. Você diz não saber o que houve de errado e o meu erro foi crer que estar ao seu lado bastaria (...) Eu quis dizer, você não quis escutar, agora não peça, não me faça promessas. Eu não quero te ver nem quero acreditar que vai ser diferente, que tudo mudou."

Ao futuro fica o nosso encontro, mas por favor, que fiquemos por aqui, agora. Mesmo um dia tendo te amado tanto, por te amar talvez para sempre, mas é por amar primeiro a mim que é melhor que seja assim.

Um comentário:

  1. Incrível como pode haver compatibilidade entre histórias de desconhecidos. Confesso que deixei escorrer uma lágrima de lembrança não curada.

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