No meu castelo de conto de fadas a realidade sempre aparece pra fazer uma visita. As vezes sua chegada é indesejada, em outras é muito bem vinda. Acontece que de fato nesse condado tudo é possível, desde os atos mais heróicos, mais românticos, mais generosos, mais inspiradores e mais nobres, até os mais mundanos, mais mesquinhos, mais simplórios, mais mentirosos, mais cruéis, mais egoístas, mais excêntricos, passando pelos mais bonitos e os mais feios, os mais edificantes e os mais estranhos. Realidade e Fantasia então se misturam, alternam papéis, chegando a confundir os outros como a si mesmos, porém uma não sobrevive sem a outra. A fantasia por si só seria a loucura, seria a "perda" da noção de concreto, de verdade, do comum a mim e aos demais. A realidade sozinha seria um campo de guerra, cheio de minas escondidas, cheio de acidentes em terreno infértil. Não se vive nem em uma nem em outra. Me esforço então pra andar na linha do meio, na fronteira, nos limites. Tênue, às vezes pendo mais para um lado do que para o outro e quando assim faço é porque preciso, como preciso as vezes acordar de pesadelos (ou sonhos) ou embelezar a vida, sonhando acordada. Antigamente me perceber pendendo para um desses lados me daria a sensação de frustração, talvez até de culpa por sonhar demais ou de menos. Mas hoje entendo, aceito, compreendo e sei que o movimento da vida é em ondas e não em linha reta. As ondas recuam, sobem, descem, avançam. As ondas constroem praias. As ondas destroem casas. Oras em maré alta, oras em maré baixa. A linha reta é a morte, é a constância que na vida só há quando a própria deixa de existir. A linha reta é monótona, é previsível. A vida, a minha vida, não é pra ser assim. Exercito então abrir mão da minha tendência natural de buscar por controle ou permanência e me abrir para o movimento, para as experiências, para pisar na fantasia e na realidade, sabendo que ambas tem a mesma importância e que são recursos legítimos de quem quer viver como humano nesse mundo de provas e expiações. O castelo desce suas pontes para as visitas necessárias, que podem ser exatamente aquelas que eu não espero, que eu não quero, que julgo não precisar, mas que por algum motivo divino são necessárias ao meu crescimento, ao meu aprendizado, aos meus resgates, a mim.
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